quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Lições sobre " vontade"...

Como já é de conhecimento de todos aqueles que acompanham as "Lições de Miguel" pelo blog, meu filho tem um pequeno probleminha em descobrir a hora em que deve ir fazer xixi. Ele normalmente espera até o último minuto, faz uma dancinha esquisita, sapateando e segurando o pipi, e sai correndo depois da minha ordem:
- Vai fazer xixi, Miguel!!!
Bem, não preciso nem dizer que em boa parte das vezes um pinguinho acaba saindo na cueca. Não adianta! Por mais que eu fale, que eu explique, que diga que tem que ir ao banheiro antes do xixi sair, que não precisa esperar até o último minuto, etc, etc... nada adianta. É sempre a mesma história: dancinha, ordem, pinguinho na cueca.
Hoje não foi diferente. Bem, prá falar a verdade, foi! Quando vi o Miguel agitado depois do café da manhã, falei:
- Filho, você tá querendo fazer xixi que eu sei! Vai logo no banheiro.
- Num tô não, mãe...
- Miguel... num espera até não aguentar mais, filho. É só ir no banheiro que o xixi sai.
Qual não foi a minha surpresa com a seguinte resposta.
-Mãe, vou te explicar: é que quando eu fico na frente da privada a água me hipnotiza. Eu nem quero fazer xixi, mas com aquela água me hipnotizando, eu faço. E eu não quero ser hipnotizado agora, entendeu?
Eu deixei. Rindo a gente não consegue convencer ninguém, muito menos criança... e eu já estava rindo. Preciso de tempo prá pensar numa resposta prá mais essa...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lições sobre "ajuda"...

Nestas férias nós saímos totalmente da rotina: estamos acordando tarde, dormindo tarde, comendo porcaria o dia inteiro... uma beleza. Aproveito prá brincar um pouco com o Miguel e a Clara. Resultado: brinquedos pela sala, pelo quarto, pelo quintal... Daí eu tenho que vestir a capa de "carrasca" e fazer os dois me ajudarem a guardar tudo. Eles reclamam um pouco, mas sempre ajudam. Nestes últimos dias eu estava até estranhando a prontidão dos pequenos. A Clara, com uma flanelinha na mão, queria tirar o pó dos móveis da sala; o Miguel pediu o pano de chão prá limpar o leite que havia derramado. Aproveitei e já fiz com que me ajudassem a arrumar a despensa.
Hoje fui com o Miguel ao supermercado. Assim que chegamos fui tirando os produtos da sacola e dizendo à ele onde deveriam ser guardados. Depois tomamos um "café da noite". Pedi que ele aproveitasse que estava de pé e guardasse a comida na geladeira:
- Pega o presunto e o queijo, filho... põe naquela gavetinha. Agora põe a manteiga e o leite na porta. Fecha direitinho...
O Dê se surpreendeu:
- Olha, filhão... que legal, a mamãe tá te ensinando a guardar as coisas...
Ele então virou só a cabecinha, deixando metade do corpo à mostra por trás da porta da geladeira e, fazendo uma cara de sapeca, respondeu:
- Que nada pai. Ela tá é me fazendo de escravo!
Nem consegui ficar brava. Só ri da resposta que parecia estar na ponta da língua desde o dia em que mandei guardar os brinquedos...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Lições sobre sinceridade...

Há dois meses ficamos sócios de um clube para aproveitarmos as aulas de pilates, judô e musculação que eram oferecidas, além da piscina, é claro. O Miguel amou a idéia, mas ficou triste porque o primo, Filipe, não poderia ir ao clube com ele. Foi então que decidi tentar levá-lo para assistir uma aula de judô usando a carteirinha da Clara.
Quando estacionei o carro em frente ao clube o Miguel logo perguntou:
- Mãe, o Filipe vai ficar prá fora?
Eu respondi que não, que o Filipe ia entrar com a gente.
- Mas ele tem carteirinha?
-Deixa comigo, Miguel. Fica sossegado que a mamãe sabe o que fazer.
Ao chegar na catraca, peguei a carteirinha do Miguel e logo que a luz verde acendeu, ele passou. Depois se virou e disse, me olhando com cara de "ponto de interrogação":
- E agora, mãe? O Filipe vai entrar sem carteirinha?
A funcionária que estava na portaria deu uma olhada de "canto de olho" e eu, quase sem jeito, respondi:
- Não filho, o Filipe vai entrar com a carteirnha.
- Mas ele tem carteirinha, mãe?
-Claro que tem, Miguel - falei, enquanto passava a carteirinha da Clara. Foi então que o "super-sincero" deu a bola fora do ano.
- Ô, mãe... essa carteirinha é da Clara.
Eu quase fuzilei meu filho com os olhos. A funcionária fingiu que não ouviu, nós entramos e ficou por isso mesmo.
Os dois fizeram a aula de judô e o Filipe amou o clube. Na hora de ir embora eu alertei o Miguel:
- Filho, o Filipe entrou com a carteirinha da Clara mas, na verdade, a gente não pode fazer isso. É errado, filho. A mamãe só fez isso hoje prá ele poder conhecer o clube. Então, Mi, na hora de passar a carteirinha prá ir embora você fica bem quietinho, porque se a moça perceber que é da Clara e não do Filipe ela vai ficar brava com a gente, entendeu?!?
- Ah, mãe, entendi. Então, na hora que você passar a carteirinha eu vou falar prá moça "olha, moça, essa carteirinha não é da Clara, é do Filipe, viu. Não precisa ficar brava, não, viu!"
Percebendo que o negócio ia piorar, eu completei:
- Não, meu filho. você não vai falar nada. É só ficar bem quietinho.
Passei a carteinha do Mi, ele passou pela catraca. Depois passei a da Clara e o Filipe saiu. Olhei pro Miguel e ele, dando uma piscadinha com os dois olhos, espremeu a boquinha como quem diz "tô bem quietinho, mãe". Então, mais tranquila, passei minha carteirinha e saí. Falei então pros dois:
- Digam tchau prá moça.
- Tchau, porteira!
Daí o Miguel, num sussurro gritado, deu o fora final:
- Ainda bem que ela não percebeu que você passou a carteirinha da Clara de novo, né, mãe!
A moça riu e eu respondi:
- É, Miguel, ainda bem que ela não notou nada...

sábado, 28 de novembro de 2009

Lições sobre comprar e pagar...

Se esse mundo capitalista confunde a cabeça dos adultos, imagine só o que pode acontecer com a de uma criança...
Sempre que saímos o Miguel pede prá comprar alguma coisa. Geralmente são balas, doces ou qualquer outra coisa baratinha, mas ainda assim eu digo que só vamos comprar o que for realmente necessário, que não é legal ficar comprando o que não vamos usar, afinal de contas dinheiro não dá em árvore e o papai e a mamãe têm que trabalhar bastante para poder receber no começo do mês. Enfim, aquele discurso didático sobre "dar valor ao que se tem". Outro dia, no percurso para casa, ele perguntou se podíamos passar no supermercado para comprar um pacote de balas, pirulitos e brinquedinhos para fazermos a sacolinha surpresa do próximo aniversário. Detalhe: o próximo aniversário será em agosto do ano que vem.
- Filho, é claro que nós não vamos comprar nada disso agora. Seu aniversário ainda tá bem longe. Além disso a mamãe ainda não recebeu, então não temos nenhum dinheirinho prá comprar estas coisas.
- Mas mãe, não precisa de dinheiro. É só por no crédito.
Eu perguntei:
- E o que você acha que é "por no crédito", Miguel?
E ele, fazendo os gestinhos com as mãos, respondeu:
- Ué, mãe, é só pegar aquele cartão, passar assim e falar prá por no "crédito". Ele tem bastante dinheiro, então a gente não precisa pagar.
- Quem tem bastante dinheiro, Miguel?
- O "crédito", mãe. Num é ele que paga quando a gente passa o seu cartão?
Então eu expliquei:
- Mas meu filho, crédito não é uma pessoa. Crédito é uma forma de pagar as contas. Quando eu falo prá "por no crédito" eu estou dizendo que eu vou pagar aquela conta no banco depois. De qualquer jeito sou EU que vou pagar, Miguel. Se não tiver dinheirinho, num tem crédito, entendeu?
Então ele, um tanto decepcionado, respondeu:
- Puxa, mãe... e eu que achava esse "crédito" muito bonzinho. Que nada. Ele só engana a gente.
É... isso não dá prá negar!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Os 7 pecados capitais dos pais (última dose)...

Embora não esteja na lista dos "sete pecados capitais", a mentira revela um desvio de caráter que interfere na qualidade da educação que pretendemos dar aos nossos filhos. Não é necessário lembrar que aquilo que se diz a uma criança torna-se "lei" (portanto nunca prometa o que não pode cumprir, nunca estabeleça regras que você mesmo costuma transgredir, jamais afirme algo que você terá que negar em seguida). Porém, a mentira a que me refiro como pecado capital dos pais é um pouco mais sutil: trata-se da atitude que contradiz o discurso. Quando dizemos algo, quando assumimos a "palavra" como um contrato social, nossas atitudes precisam validar nosso "dizer". Infelizmente isso não tem acontecido nas relações familiares. A palavra "amor" tornou-se tão banal que esquecemos de dar à ela o peso que merece, isto é, de cercá-la de ações que demostrem seu poder e sua importância. Amar os filhos é mais do que dizer isto à eles... é repreender com doçura, é investir tempo mesmo na falta dele, é sentir prazer em desfrutar de uma companhia barulhenta, é brincar por diversão e não por obrigação, é ter uma imagem turva de como a vida era antes da chegada dos pequenos. As crianças percebem quando fazemos algo que condiz (ou não) com o que falamos. Creio que o pior pecado cometido pelos pais é mentir sobre o amor que sentem por seu filho, mentir que sentem prazer em tê-lo por perto, mentir que tudo o que estão fazendo é para o seu bem. Se a impaciência é constante, a ausência é rotineira e o bem-estar do adulto vem em primeiro lugar, é óbvio que o discurso não condiz com a prática, e as crianças identificam este "descompasso" com muita facilidade. Na verdade, os próprios pais se deixam enganar e acabam acreditando em suas próprias mentiras de tanto repetí-las e repetí-las. É bastante fácil questionar o amor de pais que espancam, estupram, exploram e abandonam seus filhos. A obviedade dessas atitudes não deixa dúvidas quanto ao caráter dos pais. Porém sejamos sinceros: que caráter fica evidenciado por nossas mentiras sutis? O abandono moral, psicológico e intelectual, tão presente na relação entre pais e filhos em nossos dias, precisa ser visto como nocivo para a criança assim como qualquer outro tipo de abandono. Distorcer esta verdade só traz prejuízos ao relaciomento. É necessário que todas as máscaras caiam para que a educação seja eficaz, fazendo com que nossos filhos se tornem pessoas verdadeiramente responsáveis e felizes.

sábado, 21 de novembro de 2009

Os 7 pecados capitais dos pais (8ª dose)...

É muito comum vermos mini-adultos andando pelas ruas, brincando em parques, passeando em shoppings com seus pais... Basta olharmos ao nosso redor para reconhecermos: as crianças nem sempre se parecem com crianças. Elas dançam como adultos, se vestem como adultos e consomem como adultos. A luxúria é um pecado que contamina pais e filhos. Este pecado está intimamente relacionado com a sensualidade. Mas, afinal, que relação pode haver entre a sensualidade e a infância? Infelizmente estes dois opostos têm se tornado cada vez mais próximos e, mais uma vez, os pais têm desempenhado um papel fundamental para esta aproximação. Sem capacidade para discernir entre mal e bem, as crianças dependem de seus pais para guiá-los em escolhas simples como o que vestir, que música ouvir ou que filme ver. Desatentos, estes têm negligenciado sua tarefa, resultando em crianças e pré-adolescentes que escolhem suas roupas de acordo com a moda lançada pela garota da novela, pela dançarina do grupo de Funk ou outra "celebridade" qualquer. Algumas músicas frequentemente cantadas pelas crianças nos deixariam ruborizados se refletíssemos atentamente sobre suas letras. No entanto, qualquer proibição pura e simples não desenvolverá em nossos filhos o senso crítico que desejamos. É preciso que gastemos tempo analisando o que nós, pais, temos ouvido; como nós, pais, temos nos comportado; de que forma nós, pais, julgamos o que nos chega através da mídia em geral. Precisamos primeiramente desenvolver em nós a criticidade para, então, ensinarmos nossos filhos a duvidarem da qualidade do que lhes é oferecido pelas grandes massas. O estranhamento deve ser o sinal mais evidente de que algo está fora do lugar. Se nada nos parece estranho, é sinal de que tudo está fora do lugar!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os 7 pecados capitais dos pais (7ª dose)...

Outro pecado que os pais têm cometido, apesar de não reconherem, é o da gula. E não me refiro apenas à gula relacionada à comida e à bebida. As crianças de hoje estão “obesas de informação e anoréxicas de reflexão” (expressão do Prof. Dr. José Kuiava), fartas de “coisas” e carentes de afeição. A quantidade tem sido colocada em primeiro lugar e a qualidade, preterida, sempre fica em segundo plano. O excesso de peso característico dessa geração é apenas uma figura da nossa sociedade, inchada, pesada, farta, mas nunca satisfeita. É exatamente assim que um obeso mórbido se sente. Apesar de ingerir alimentos em grande quantidade, a fome nunca é saciada e o prazer pela alimentação transforma-se em sofrimento. Esse descontrole resulta em malefícios para o corpo e para a mente, assim como a perda da auto-estima. Os relacionamentos familiares não são diferentes. Para driblar a falta de tempo com os filhos, ao invés de investir na qualidade, os pais investem na quantidade. Temos, então, crianças com agendas lotadas: escola de manhã, programa de educação complementar à tarde, judô, karatê, balé, curso de inglês, informática, artesanato... Porém são raros os momentos em que os pais acompanham seus filhos nessas atividades. Em creches e escolas de Educação Infantil (mesmo particulares) é muito comum ver crianças que chegam às 7 horas dormindo e voltam para suas casas às 18 horas dormindo – e nos finais de semana ainda vão para a casa dos avós. É certo que toda atividade que promova o desenvolvimento físico, motor e psicológico da criança deve ser considerada benéfica para o seu crescimento, mas o que pode ser considerado mais importante para este desenvolvimento do que o contato com a família e o relacionamento saudável com os pais? Nossos filhos têm se tornado experts em jogos de computador, internet, filmes e desenhos, gulosos por novas fases, novas compras, novas aquisições, mas pouco têm digerido de tudo o que lhes damos. Falta-lhes um nutriente essencial: a atenção! Ninguém melhor do que os pais para ensinar a eles educação, respeito e ética. Somente desta forma as crianças crescerão tendo seus valores equilibrados na balança.